O labirinto da mente de quem tem Alzheimer no filme “Meu Pai”

Obra que faturou dois Oscar trata dos desafios e dilemas de um homem e uma família que passam a conviver com a demência

O jornalista e escritor Fernando Aguzzoli não aguentou ficar acordado até tarde no dia 25 de abril para assistir à cerimônia de entrega do Oscar. No entanto, vibrou muito ao descobrir, na manhã do dia seguinte, que seu candidato favorito na categoria de Melhor Ator tinha vencido a disputa. A torcida por Anthony Hopkins tinha razão de ser. No filme Meu Pai, estreia de Florian Zeller na direção, o ator galês de 83 anos interpreta um engenheiro aposentado que, para desespero da filha, vivida pela atriz inglesa Olivia Colman, começa a apresentar sinais de demência.

Em 2012, Aguzzoli viveu um drama parecido. Quatro anos antes, sua avó, Nilva, recebera o diagnóstico de Alzheimer. “O filme me fez lembrar os muitos papéis que assumi durante o Alzheimer da vovó. Já fui seu irmão, seu vizinho, seu pai… Já fui tudo no mesmo dia, mas também já fui nada”, recorda o autor dos livros.

Não reconhecer a própria filha é apenas um dos sintomas de demências como o Alzheimer. Ao longo de seus 97 minutos de duração, Anthony – o protagonista do filme recebeu esse nome em homenagem ao ator – vive esquecendo onde guardou o relógio, não lembra que sua outra filha morreu em um acidente, nem consegue vestir seu casaco sozinho.

O presidente do Centro Internacional de Longevidade, médico e gerontologista Alexandre Karachi admite que a perda de memória pode de fato ser um sinal da doença de Alzheimer. Mas ele acredita que, para diagnosticar a doença, uma série de manifestações deve ser considerada. Mais importante, eles precisam ser analisados no contexto, não no isoladamente.

“Todo mundo esquece onde colocaram seus relógios, chaves ou óculos em algum momento de suas vidas, certo? Qualquer pessoa pode sofrer de amnésia. Entre os sintomas descritos no filme, o mais preocupante é não reconhecer a filha”, disse Kalanche. No entanto, existem outras pistas. Abrir a geladeira e encontrar um monte de produtos vencidos é um deles. Sair para passear na rua mas não encontrar o caminho de volta é outra questão.

Breno Barbosa, neurologista do Departamento de Neurologia Cognitiva e Ciências do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), apontou outros dois sintomas: quando o idoso começa a ficar repetitivo, ou seja, quando faz a mesma pergunta várias vezes, ou confunde datas e passa a não ter noção de dias da semana. “Quando o esquecimento é recorrente e interfere nas atividades diárias, ele se torna um sintoma. Os indivíduos passam a precisar de ajuda para realizar tarefas que antes realizavam de forma autônoma”, explica.

Como envelhecer bem?

Depois de tanto tempo, os cientistas ainda não encontraram uma cura para o mal de Alzheimer. Apenas controle de sintomas. Mesmo assim, nos estágios iniciais da doença. “Os principais fatores de risco evitáveis são hipertensão, diabetes e estilo de vida sedentário. Portanto, adotar um estilo de vida saudável combinado com atividades intelectuais regulares, como leitura, palavras cruzadas ou aprender um novo idioma pode ajudar a evitar até 40% dos casos.” Calcula Barbosa. Infelizmente, os 60% restantes estão relacionados a causas inevitáveis, como a genética e o próprio envelhecimento”, acrescentou o especialista do ABN.